As principais associações alemãs de pacientes e do setor da canábis contestam a nova lei de estabilização das contribuições do seguro de saúde. O motivo é simples: a lei elimina por completo o reembolso das flores de canábis medicinal. Na prática, quem depende do seguro público deixa de ter acesso comparticipado à forma inalável mais rápida, mais versátil e mais barata deste medicamento.
Este é o primeiro grande retrocesso desde a entrada em vigor da Lei da Canábis. Nós, na Shottas®Seeds, acompanhamos o tema de perto, porque o que se decide em Berlim costuma ter eco no resto da Europa.
Uma lei orçamental com impacto direto nos pacientes
A medida integra a Lei de Estabilização da Taxa de Contribuição do Seguro de Saúde Obrigatório (GKV-BStabG). Trata-se de um pacote legislativo que procura conter os custos do sistema público de saúde alemão. O GKV é o seguro de saúde obrigatório que cobre a grande maioria da população da Alemanha. Uma decisão sobre o que o GKV reembolsa afeta, por isso, a esmagadora maioria dos pacientes.
A proposta da coligação "preto-vermelha" foi aprovada antes do recesso de verão do Bundestag. Esta coligação junta a CDU/CSU, conservadora, e o SPD, social-democrata. Este mês, a Comissão de Saúde do parlamento realizou uma audição sobre as alterações propostas.
A Associação Alemã do Cânhamo (DHV) publicou uma tomada de posição antes da audição. A DHV é a principal organização de defesa da canábis no país. No documento, recorda que a eliminação do reembolso foi "um golpe duro para muitos pacientes". Sublinha também que se trata do primeiro grande revés desde a entrada em vigor da Lei da Canábis (Cannabisgesetz), o diploma que regulou o uso adulto e o acesso medicinal na Alemanha. A mudança coincide ainda com o início do atual governo.
Porque é que as flores são insubstituíveis para muitos pacientes
Georg Wurth, presidente da DHV, explicou na audição que o problema vai além das flores. Na sua leitura, a nova lei deixa os segurados do GKV sem qualquer medicamento de canábis inalável reembolsado.
"Muitos pacientes dependem do início de ação muito mais rápido em comparação com a administração oral." — Georg Wurth, DHV
A diferença é concreta. Por via inalatória, os canabinoides chegam aos pulmões e passam diretamente para a corrente sanguínea, e o efeito surge em minutos. Por via oral, sob a forma de óleos ou cápsulas, a substância passa primeiro pelo sistema digestivo e pelo fígado, e o efeito pode demorar uma hora ou mais. Para quem gere crises de dor aguda, espasmos ou náuseas, esse intervalo faz toda a diferença.
Wurth aponta mais dois argumentos a favor das flores:
- Amplitude terapêutica: a enorme diversidade de variedades, com perfis distintos de canabinoides e terpenos, permite ajustar o tratamento a cada paciente. Os terpenos são os compostos aromáticos que dão a cada genética o seu cheiro e sabor e que modulam o efeito.
- Custo-eficácia: em termos de teor de THC, as flores são o produto mais barato disponível. Excluí-las acaba por empurrar o sistema para alternativas mais caras.
Extratos, rosin e vapes: a zona cinzenta do reembolso
Sem as flores, restariam outros produtos inaláveis. O caminho, porém, também não está livre. Wurth destaca o rosin, um extrato obtido apenas com calor e pressão, sem solventes. Destaca também os chamados "extratos frescos", feitos a partir de material vegetal não curado. Ambos são vendidos puros e não diluídos em soluções oleosas.
Estes extratos não são, em regra, reembolsados pelo GKV. A justificação é que o seu teor de THC ultrapassa o limite previsto na definição legal de medicamento à base de canábis. As seguradoras mostram igualmente reservas quanto às vape pens, dispositivos portáteis que vaporizam extratos sem combustão.
| Produto inalável | Situação no GKV | Motivo apontado |
|---|---|---|
| Flores de canábis | Excluídas do reembolso | Exclusão geral prevista na GKV-BStabG |
| Rosin e extratos frescos | Geralmente não reembolsados | Teor de THC acima do limite da definição legal |
| Vape pens | Reembolso incerto | Reservas das seguradoras |
Para a DHV, é urgente clarificar a situação legal destes produtos. Só assim haverá preparações inaláveis disponíveis quando o tratamento o exige, sobretudo se a exclusão das flores se mantiver.
O que exigem as associações de pacientes e da indústria
A DHV não está sozinha. A BAG Selbsthilfe representa 121 associações nacionais de grupos de autoajuda para pessoas com doenças crónicas ou deficiência e respetivos familiares, além de 13 grupos de trabalho estaduais. A organização rejeita a reintrodução de concursos de adjudicação para dispositivos de apoio e citostáticos. Os concursos de adjudicação são procedimentos em que as seguradoras contratam fornecedores sobretudo pelo preço. Os citostáticos são medicamentos de quimioterapia que travam a divisão celular. A BAG Selbsthilfe insiste ainda na necessidade urgente de alterar as novas regras sobre o fornecimento de canábis.
A Associação Alemã de Pacientes de Canábis (BDCan) mantém a crítica à exclusão generalizada das flores. Exige também:
- Disposições transitórias e de exceção para casos de especial dificuldade. São regras que protegem pacientes cujo tratamento não pode ser interrompido ou substituído.
- Fundamentos científicos definidos e verificáveis para a avaliação comparativa de risco, isto é, o processo que compara os riscos de diferentes formas de administração.
- Regras fiáveis para extratos padronizados, altamente concentrados e, quando aplicável, inaláveis. Essas regras devem abranger a produção, a dispensa, a tributação e o reembolso.
- A rápida atualização das diretrizes e da informação prática assim que a lei for adotada.
A Associação Alemã da Indústria da Canábis (BvCW) e a Associação Federal da Indústria Farmacêutica (BPI) também se pronunciaram. A frente crítica junta, assim, pacientes, autoajuda, empresas e farmacêuticas.
Perguntas frequentes
O que muda para os pacientes de canábis medicinal na Alemanha?
Com a lei GKV-BStabG, as flores de canábis deixam de ser reembolsadas pelo seguro de saúde obrigatório alemão. Quem as utiliza passa a suportar o custo total ou a mudar para formas orais, como óleos e cápsulas. Estas formas têm um início de ação mais lento e, em termos de THC, são mais caras.
Porque é que a via inalatória é importante no tratamento com canábis?
Quando a canábis é inalada, os canabinoides entram rapidamente na corrente sanguínea através dos pulmões e o efeito surge em poucos minutos. Na via oral, a substância passa pelo sistema digestivo e pelo fígado antes de atuar. Para crises de dor, espasmos ou náuseas, essa rapidez é muitas vezes decisiva.
O rosin pode substituir as flores no reembolso alemão?
Para já, não. O rosin é um extrato sem solventes, obtido por calor e pressão, e normalmente não é reembolsado pelo GKV. A justificação é que o seu teor de THC ultrapassa o limite da definição legal de medicamento à base de canábis. A DHV pede clarificação legal urgente sobre este ponto.
Que organizações criticaram a nova lei?
A Associação Alemã do Cânhamo (DHV), a BAG Selbsthilfe, que reúne 121 associações de autoajuda, e a Associação Alemã de Pacientes de Canábis (BDCan) foram as mais vocais. A Associação Alemã da Indústria da Canábis (BvCW) e a Associação Federal da Indústria Farmacêutica (BPI) também emitiram tomadas de posição.
O que são disposições de exceção para casos de especial dificuldade?
São regras que permitem manter um tratamento quando a mudança obrigatória causaria prejuízo sério ao paciente. A BDCan exige-as para quem depende das flores de canábis. Assim, estes pacientes não perderiam de um dia para o outro uma terapia estabilizada, eficaz e sem alternativa equivalente.
Fontes
- Deutscher Hanfverband – o site da associação com as suas posições sobre a canábis medicinal, Deutscher Hanfverband, 2025-01-01
- Ausschuss für Gesundheit – a página da comissão de saúde do Bundestag, Deutscher Bundestag, 2025-01-01




