O mercado europeu da canábis está a crescer ao ritmo mais rápido de sempre. Reformas legislativas, mais doentes a procurar tratamento e um comércio de exportação cada vez maior estão a mudar os principais mercados do continente, e o último relatório da Prohibition Partners mostra isso nos números. Já olhámos para o panorama geral e para os fatores externos que podem condicionar o velho continente; agora ficam os dados.
Alemanha: o efeito da reforma regulatória
A Alemanha é o maior mercado de canábis medicinal da Europa, avaliado em mais de 670 milhões de euros em 2025, com projeções de 1,32 mil milhões de euros para 2029. É quase o dobro em quatro anos, resultado de vários fatores que se alinharam.
As importações duplicaram em 2024, para 72 000 quilogramas, com Canadá, Portugal e Dinamarca à cabeça do fornecimento. Em paralelo, o cultivo doméstico deixou o antigo sistema de concursos públicos restritos e passou a um modelo aberto de licenciamento. Produtores como a Tilray/Aphria, a Aurora e a Demecan já estão a expandir capacidade instalada para responder à procura.
O efeito na carteira do doente vê-se no preço: a flor caiu de 10,19 € para 7,42 € por grama no último ano. Mais concorrência, preços mais baixos. A flor continua a dominar o mercado (86% dos produtos vendidos), mas extratos, óleos e vaporizáveis vão ganhando terreno devagar.
O lado recreativo: associações e projetos-piloto
No consumo adulto, operam mais de 230 associações de cultivo ao abrigo da Cannabis Control Bill (CanG). Juntam-se-lhes 28 distritos, distribuídos por 10 estados federados, que apresentaram candidaturas para lançar projetos-piloto de venda a retalho, pensados para estudar com dados reais os efeitos de um mercado regulado.
"A combinação de reforma regulatória, infraestrutura de telessaúde e aumento da oferta doméstica e internacional está a definir a referência para a rapidez com que os mercados de canábis medicinal podem escalar", afirma Alex Khourdaji, analista sénior da Prohibition Partners.
Reino Unido: o segundo maior mercado europeu
O mercado britânico de canábis medicinal vale hoje mais de 258 milhões de libras (cerca de 300 milhões de euros) e deverá chegar aos 543 milhões de libras (630 milhões de euros) em 2029. O motor é o acesso digital.
Mais de 30 plataformas de telessaúde servem atualmente os doentes britânicos, o que faz do modelo remoto o eixo central do ecossistema. O cultivo nacional também está a crescer, com empresas como a Glass Pharms, a Dalgety e a Celadon a aumentar operações. Só a Glass Pharms se prepara para produzir 1750 quilogramas anuais, ao abrigo de um acordo de fornecimento com as Releaf Clinics.
Ainda assim, as importações mantêm-se elevadas: de menos de 3 toneladas antes de 2022 passaram para 15,5 toneladas em 2024. Só até março de 2025 tinham já entrado no país mais de 2 toneladas. Há entre 50 000 e 60 000 doentes, com previsões de 80 000 tratados até ao final do ano.
Os preços mantêm-se estáveis: a flor passou de 7,47 para 7,05 libras por grama, uma descida ligeira. "À medida que o cultivo doméstico escala e o acesso digital se enraíza, o mercado está a evoluir rapidamente de nicho para mainstream, criando oportunidade tanto para operadores globais como para pioneiros locais", explica Lawrence Purkiss, analista sénior da Prohibition Partners.
Polónia, Dinamarca e Chéquia: os exportadores em ascensão
Fora dos dois maiores mercados, há três países que se consolidaram como peças estratégicas na cadeia de abastecimento:
- A Polónia é o quarto maior mercado medicinal europeu, projetado em 72 milhões de euros para 2025, puxado pela telemedicina e pela aprovação de novos produtos.
- A Chéquia aumentou muito as exportações, enviando 1300 quilogramas para a Alemanha em 2024, na sequência das reformas ao cultivo.
- A Dinamarca exportou mais de 7 toneladas para a Alemanha no mesmo ano, depois de ter tornado permanente o seu programa-piloto.
Portugal: o centro de cultivo da Europa
Aqui a história é nossa, e é agridoce. Portugal exportou mais de 18 toneladas de canábis medicinal em 2024, mais 54% do que no ano anterior. A Alemanha absorveu quase metade desses carregamentos, seguida por Espanha, Polónia, Reino Unido e Austrália. O clima, o custo de produção e a maturidade regulatória fizeram do país um dos grandes fornecedores mundiais.
O contraste é grande: o acesso dos doentes em Portugal continua limitado. Custos elevados, um sistema de aprovação restritivo e a ausência total de comparticipação pública mantêm o mercado interno pequeno. Produzimos para o mundo, mas os doentes portugueses ficam à porta. É uma lacuna que a próxima fase de regulação terá de resolver.
Suíça: os pilotos aproximam-se da legalização
Os projetos-piloto suíços de consumo adulto, lançados em 2023, abrangem já mais de 10 000 participantes em sete projetos. Até agora não se registou aumento dos níveis de consumo, e os participantes relatam melhor acesso a produtos mais seguros e menor dependência do mercado ilícito.
Até ao final de 2025, as vendas no conjunto dos pilotos deverão atingir 23,7 milhões de euros. Um projeto de lei para a legalização a nível nacional já foi aprovado em sede de comissão, com votação final prevista para 2026.
O que isto significa para quem cultiva
Para lá dos milhões e das toneladas, a Europa está a normalizar a canábis por dois caminhos ao mesmo tempo: o medicinal, puxado pela procura e pela telemedicina, e o regulado para adultos, testado com base em evidência científica em vez de ideologia. Os preços descem, a oferta sobe e as fronteiras comerciais abrem-se.
Para os produtores de genéticas, isto traduz-se em mais exigência: mercados maduros não compram qualquer coisa. Compram estabilidade genética, perfis de terpenos consistentes e rastreabilidade. A média não chega, e nunca chegou. No mediocre!
FAQ
Qual é o maior mercado de canábis da Europa?
A Alemanha, com um valor superior a 670 milhões de euros em 2025 no segmento medicinal e uma projeção de 1,32 mil milhões para 2029. Lidera também em importações, com 72 000 quilogramas em 2024.
Porque é que os preços da flor estão a descer na Alemanha?
Pelo aumento da concorrência. A passagem de um sistema de concursos restritos para um licenciamento aberto multiplicou os produtores nacionais, e as importações duplicaram. Com mais oferta, o preço médio caiu de 10,19 € para 7,42 € por grama.
Portugal é um bom mercado para doentes?
Como produtor, sim: é um dos maiores exportadores europeus, com mais de 18 toneladas em 2024. Como mercado interno, não. Os custos elevados, o sistema de aprovação rígido e a inexistência de comparticipação pública limitam fortemente o acesso dos doentes.
O que é a CanG alemã?
É a lei alemã de controlo da canábis que enquadra o consumo adulto, nomeadamente através de associações de cultivo, já mais de 230 em atividade. Prevê ainda projetos-piloto de venda a retalho, com 28 distritos em 10 estados a candidatarem-se.
A Suíça vai legalizar a canábis?
Está no caminho. Um projeto de lei de legalização nacional já passou a fase de comissão e a votação final está marcada para 2026. Os dados dos pilotos, com mais de 10 000 participantes, sustentam o argumento: sem aumento de consumo e com menor recurso ao mercado ilícito.
Como é que o Reino Unido chegou a segundo maior mercado?
Sobretudo pela via digital: mais de 30 plataformas de telessaúde tornaram a prescrição acessível a 50 000–60 000 doentes, número que deverá chegar aos 80 000 até ao final do ano. O cultivo doméstico, com nomes como Glass Pharms e Celadon, começa agora a reduzir a dependência das importações.
Que países europeus se afirmam como exportadores?
Portugal lidera destacado, seguido da Dinamarca (mais de 7 toneladas para a Alemanha em 2024) e da Chéquia (1300 quilogramas). A Polónia cresce mais pelo lado da procura interna, sendo já o quarto maior mercado medicinal europeu.
Isto afeta quem cultiva para consumo próprio ou coleciona sementes?
Indiretamente, mas de forma real. Mercados regulados elevam o padrão de qualidade e de informação genética disponível, e empurram a legislação nacional na direção de maior tolerância. Quanto mais maduro o mercado, mais exigente o cultivador, e melhores as genéticas que circulam.
Fontes
- European Cannabis Report – relatório sobre o mercado europeu de canábis, Prohibition Partners
- Cannabisgesetz (CanG) e Medizinal-Cannabisgesetz (MedCanG) – informações do ministério da Saúde, Bundesministerium für Gesundheit
- Projetos-piloto de venda de canábis na Suíça – informações do serviço de saúde, Bundesamt für Gesundheit (BAG)
- Canábis para fins medicinais – regulamentação e dados da autoridade portuguesa do medicamento, INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde




