O SCRIPT é o ensaio suíço que vende canábis legalmente em farmácias de Berna, Lucerna e Biel. Os seus primeiros seis meses mostram que o acesso regulado não aumentou o consumo nem os danos para a saúde. Quem compra na farmácia recorre menos ao mercado ilícito e troca com mais frequência a flor fumada por formas de consumo potencialmente menos nocivas, como vaporizadores e produtos orais.
Os dados intercalares foram apresentados em Berna a 7 de setembro de 2026. Juntam-se a um corpo crescente de evidência europeia que desmonta, número a número, os cenários catastróficos anunciados pelos críticos da regulação. Para quem cultiva, coleciona ou simplesmente acompanha o setor, são dados que merecem ser lidos com atenção.
A Europa está a medir a regulação, e os números não assustam
Os mercados de canábis mais progressistas da Europa estão a trocar suposições por dados. Os estudos são encomendados pelos próprios governos e vão todos no mesmo sentido: mais acesso não significa mais danos para a saúde pública.
Na Alemanha, os relatórios Ekocan já mostraram que a reforma não produziu os efeitos negativos que os seus opositores previam. Trata-se da avaliação científica que o governo alemão tornou obrigatória para medir o impacto da lei da canábis. Nos Países Baixos, as autoridades publicaram os primeiros resultados da experiência nacional de canábis para uso adulto. Essa experiência testa uma cadeia de abastecimento legal, do cultivo à venda nos coffeeshops.
A Suíça seguiu outro caminho. Em vez de um único modelo nacional, tem oito projetos-piloto regionais ativos. Cada um é uma experiência autorizada por lei, limitada no tempo e no número de participantes, para testar a venda legal de canábis a adultos. Cada piloto isola uma variável diferente: farmácias, lojas especializadas, associações e, mais recentemente, entregas ao domicílio.
O resultado é um laboratório regulatório com uma precisão rara. Estes dados estão a alimentar diretamente a futura lei federal. Por isso, cada ensaio conta, e o SCRIPT é um dos mais completos.
O que é o SCRIPT e como foi desenhado
SCRIPT significa Safer Cannabis: Research In Pharmacies randomised controlled Trial. O ensaio é conduzido pela Universidade de Berna e pela Universidade de Lucerna, em parceria com as cidades de Berna, Biel e Lucerna. Foi um dos cinco primeiros pilotos aprovados pelo Serviço Federal de Saúde Pública (FOPH), a autoridade suíça que autoriza e supervisiona estes estudos. A aprovação chegou em maio de 2023 e as vendas arrancaram em maio de 2024.
O desenho é o de um ensaio aleatorizado controlado. Neste tipo de estudo, os participantes são distribuídos ao acaso por dois grupos, para que as diferenças observadas se devam à intervenção e não ao perfil de cada pessoa. O ensaio recrutou 1.177 consumidores adultos que já consumiam canábis. Um grupo de 588 pessoas teve acesso imediato às farmácias. Os outros 589 ficaram em lista de espera durante seis meses e funcionaram como grupo de controlo.
Distribuição por cidade
| Cidade | Participantes | Farmácias |
|---|---|---|
| Berna | 777 | 5 |
| Lucerna | 261 | 3 |
| Biel | 139 | 1 |
| Total | 1.177 | 9 |
O estudo estava previsto para três anos. Em dezembro de 2025, o FOPH concedeu uma prorrogação de dois anos: as vendas decorrem até 31 de outubro de 2028 e o estudo termina no final de 2029. O catálogo vai crescer com mais variedades de flor, um óleo de canábis e, mais tarde, comestíveis fabricados segundo o CanPG, o projeto de lei federal suíço sobre produtos de canábis.
Farmácia ou mercado ilícito? O impacto no mercado negro
A pergunta central do SCRIPT é simples: o acesso legal em farmácias tira clientes ao mercado ilícito? Seis meses depois, já há uma resposta com substância.
Nos sete dias anteriores à visita dos seis meses, 75% do grupo com acesso tinha fumado canábis. Mais de metade (51%) obteve o produto numa farmácia do estudo. Ainda assim, 40% recorreu ao mercado ilícito, e muitos participantes admitiram usar as duas fontes, muitas vezes na mesma semana. No grupo de controlo, que só tinha o mercado ilícito, o consumo foi ligeiramente mais alto: 83% no mesmo período.
Há um pormenor decisivo. Os investigadores fixaram de propósito os preços das farmácias acima dos do mercado ilícito. O objetivo era medir até que ponto o preço empurra os consumidores de volta ao mercado negro. A persistência de 40% de compras ilícitas não é, por isso, um fracasso do modelo. É precisamente o dado que o estudo quis produzir.
A lição para os reguladores é clara. A oferta legal compete com o mercado ilícito, mas o preço determina quanto terreno conquista. Um mercado regulado demasiado caro deixa a porta aberta ao produto sem controlo.
Menos combustão, mais vapor: a mudança nas formas de consumo
O dado mais interessante do SCRIPT talvez seja este: quem tinha acesso às farmácias afastou-se da flor fumada. Na mesma semana de referência, 27% do grupo com acesso usou um vaporizador. Os produtos para vaporizar vieram sobretudo da farmácia.
| Forma de consumo (grupo com acesso) | Origem: farmácia | Origem: mercado ilícito |
|---|---|---|
| Vaporizador / e-liquid | 24% | 5% |
| Produtos orais | 6% | 2% |
| Flor | Mercado ilícito preferido (preço mais baixo e potência mais alta) | |
O e-liquid é um líquido com canabinoides pensado para ser vaporizado num dispositivo eletrónico, sem combustão. Não haver queima significa não inalar alcatrão nem os compostos gerados pelo fumo. É esta a razão pela qual a vaporização é considerada uma via potencialmente menos nociva.
A flor foi a única categoria em que o mercado ilícito continuou a ganhar. Pesaram o preço mais baixo e o THC mais elevado.
O diretor do estudo, o Dr. Reto Auer, dirige a Unidade de Consumo de Substâncias do Instituto de Cuidados de Saúde Primários de Berna. O seu resumo foi este:
«O estudo produziu indicações de que a oferta regulada através das farmácias pode incentivar a mudança para formas de consumo potencialmente de menor risco.»
Um imposto simulado mais pesado do que no Quebeque
O SCRIPT aplica o imposto simulado mais pesado de todos os pilotos suíços. É um imposto aplicado dentro do ensaio para reproduzir o efeito de uma futura tributação real. São 3 a 4 francos suíços (CHF) por grama de flor e de resina. Na flor com 8% de THC, isto representa cerca de 30% do preço de venda. Na resina com 20% de THC, aproxima-se dos 50%.
O THC (tetra-hidrocanabinol) é o principal canabinoide psicoativo da planta e a medida mais usada da potência de um produto. Os investigadores sublinham que este nível fica acima da taxa efetiva combinada do Quebeque, de cerca de 25%. Fica também acima do intervalo de 20% a 40% previsto para a futura regulação suíça.
A intenção é assumida. O estudo quer que os reguladores observem esta carga fiscal em condições reais, algo que de outra forma só seria mensurável depois de uma lei aprovada. É um teste de stress feito antes de a regra existir, e não depois.
Para Auer, os primeiros sinais apontam num sentido específico:
«Estes resultados confirmam a experiência internacional de que as medidas fiscais funcionam como uma medida eficaz de proteção dos jovens.»
O equilíbrio é fino. O imposto encarece o produto e protege os mais novos. Em contrapartida, mantém parte dos adultos no mercado ilícito, como mostram os 40% de compras fora da farmácia no grupo com acesso.
Preços não lineares e produtos isentos de imposto
No SCRIPT, os preços não sobem na mesma proporção que o THC. A flor com 8% de THC custa 10 CHF por grama e a flor com 18% custa 13 CHF.
As contas são simples. Um grama a 8% contém 80 mg de THC, o que dá cerca de 0,125 CHF por miligrama. Um grama a 18% contém 180 mg, cerca de 0,072 CHF por miligrama. A flor mais fraca é mais barata ao grama, mas a mais forte é mais barata por unidade de THC.
Este desenho permite observar como reagem os consumidores. Há quem procure o preço mais baixo por grama e há quem procure o melhor rendimento por efeito. Um imposto que acompanhasse a potência de forma linear produziria comportamentos diferentes. O SCRIPT dá aos reguladores dados para comparar os dois cenários.
Há ainda duas categorias sem qualquer imposto:
- E-liquids: isentos por razões de redução de riscos, para tornar mais atrativa a alternativa à combustão.
- Tinturas: isentas pelos custos de produção e pela fraca biodisponibilidade oral. Uma tintura é um extrato líquido de canábis tomado em gotas. A biodisponibilidade oral é a fração de canabinoides que chega de facto à corrente sanguínea quando o produto é ingerido.
A lógica é coerente. Os produtos que o estudo quer incentivar pagam menos, ou nada.
Aconselhamento pago e participantes remunerados
O SCRIPT não se limita a vender. Todos os participantes têm acesso a um serviço de aconselhamento, e a receita do imposto simulado ajuda a pagá-lo.
Na primeira recolha de produto, a equipa da farmácia faz uma consulta inicial. Mais tarde, pode faturar sessões adicionais de apoio à cessação do consumo de fumo, a 30 CHF cada.
O mesmo imposto financia as visitas semestrais do estudo e os vales atribuídos aos participantes. Isto faz do SCRIPT o único piloto suíço que paga a quem nele participa. A remuneração reduz as desistências e melhora a qualidade dos dados, porque os participantes continuam a comparecer às avaliações.
Na prática, o SCRIPT testa um modelo de imposto consignado: a receita gerada pela venda regressa diretamente à prevenção e ao acompanhamento de quem consome. É a demonstração, à escala de três cidades, de que a tributação da canábis pode ter um destino concreto e visível, em vez de se perder no orçamento geral.
O papel do farmacêutico muda com isto. Deixa de ser apenas um vendedor e passa a ser um ponto de contacto de saúde. É um profissional capaz de reconhecer um consumo problemático e de encaminhar a pessoa antes de o problema escalar.
O que se vendeu em dois anos de farmácia
Em dois anos de vendas, as nove farmácias do SCRIPT escoaram 19.515 unidades de flor e 3.433 de resina, ambas em embalagens de 5 g. Venderam também 6.363 unidades de e-liquid, em formato de 2 ml, e 814 tinturas, em frascos de 10 ml.
A variedade mais vendida em volume foi a Blue Mint Cookies, com 18% de THC e 49,2 kg vendidos. Seguiu-se a Grapefruit Haze, com 15%. Os consumidores escolheram flor potente e com perfil aromático marcado quando tiveram acesso a ela. Para quem trabalha com genética, não é surpresa: a qualidade continua a ser o critério decisivo.
No material de vaporização, a diferença entre o descartável barato e o equipamento reutilizável de gama alta foi enorme:
| Produto | Preço | Unidades vendidas |
|---|---|---|
| Mighty (vaporizador) | 399 CHF | 3 |
| Arizer Air Max (vaporizador) | 259 CHF | 5 |
| Wolkenkraft Vita (vaporizador) | 99 CHF | 29 |
| Honey Stick (e-joint) | 19 CHF | 1.014 |
Um e-joint é um vaporizador compacto e pronto a usar, pensado para substituir o charro tradicional. A conclusão do SCRIPT é direta: os descartáveis baratos foram muito mais eficazes a afastar os consumidores da combustão do que o equipamento caro. Uma política de redução de riscos precisa de uma porta de entrada acessível, não de um investimento de centenas de francos.
O que está realmente na canábis do mercado ilícito
Os participantes do SCRIPT entregaram 127 amostras compradas no mercado ilícito ao Instituto de Medicina Legal da Universidade de Berna: 104 de flor, 21 de resina e dois líquidos. Nove continham canabinoides sintéticos, sete delas em resina. São substâncias fabricadas em laboratório que imitam o THC, muitas vezes com efeitos bem mais imprevisíveis e perigosos.
A potência também foge ao controlo. A flor ilícita tinha em média 15% de THC e a resina 22%, com amostras de resina a chegar aos 46%. Um dos e-liquids apresentou 79% de THC.
O dado mais revelador diz respeito à perceção dos próprios consumidores. Em 69 amostras, o participante estimou a potência antes da análise. Só uma estimativa estava correta. Vinte e sete ficaram abaixo do valor real e 41 acima, com erros até 24 pontos percentuais para os dois lados. Nem os consumidores experientes sabem o que estão a consumir.
As compras eram sobretudo sociais. Em primeiro lugar vinham amigos e conhecidos, depois um vendedor conhecido pessoalmente e, em terceiro, o autocultivo. Um participante resumiu assim o valor da alternativa legal:
«Nunca se sabe que agentes de corte lá estão, nem que outras substâncias ativas. Não ter esse medo vale imenso.»
Transparência sobre o que se consome não é um luxo. É uma questão de saúde, e é por isso que para nós a média é o inimigo.
Segurança, ordem pública e o fim de alguns preconceitos
Nos primeiros seis meses, 45 participantes, 4% da amostra, registaram 51 eventos adversos graves. Um evento adverso grave é qualquer problema de saúde sério ocorrido durante o estudo, como um internamento, esteja ou não relacionado com a canábis.
A distribuição entre grupos foi quase idêntica:
- Grupo com acesso: 26 eventos em 24 pessoas, dos quais 6 psiquiátricos em 6 pessoas.
- Grupo de controlo: 25 eventos em 21 pessoas, dos quais 8 psiquiátricos em 5 pessoas.
Os investigadores são prudentes. Com amostras tão pequenas e diferenças mínimas entre grupos, ainda não é possível tirar conclusões fiáveis. Ainda assim, não há qualquer sinal de que o acesso legal tenha agravado a saúde dos participantes.
Na ordem pública, o balanço é igualmente tranquilo. Um participante foi sancionado por revender produto do estudo. Não houve mais nenhum incidente com relevância policial nas nove farmácias das três cidades.
A mudança mais humana veio do outro lado do balcão. Vários profissionais de farmácia contaram aos investigadores que os seus preconceitos sobre os consumidores de canábis se desfizeram com o contacto direto. Um deles descreveu-os como estando agora «entre os nossos clientes favoritos». A normalização também se faz ao balcão.
Porque é que estes dados importam já
Os resultados do SCRIPT ainda não passaram por revisão por pares. Nesse processo, investigadores independentes avaliam um estudo antes da publicação científica formal. A equipa decidiu divulgá-los mesmo assim. Justifica a escolha dizendo que o SCRIPT se situa «na interface entre a ciência e a política, onde os factos são incertos, os valores contestados e as decisões urgentes».
A urgência é real. A Suíça está a preparar a regulação federal da canábis ao abrigo do CanPG, o projeto de lei sobre produtos de canábis. Os legisladores precisam de respostas concretas a várias perguntas:
- Que nível de imposto protege os jovens sem alimentar o mercado ilícito?
- Que produtos devem ser incentivados?
- Que papel devem ter os profissionais de saúde?
O SCRIPT oferece dados reais para cada uma destas perguntas, muito antes de a lei entrar em vigor.
Somado aos relatórios Ekocan da Alemanha e à experiência neerlandesa, o SCRIPT reforça uma conclusão que se torna difícil de contestar: regular com critério não aumenta os danos, e o que ameaça a saúde é o produto sem controlo. Para nós, que criamos e testamos cada genética internamente, a mensagem é familiar. Saber exatamente o que se cultiva e o que se consome muda tudo. No mediocre!
Perguntas frequentes
O que é o ensaio SCRIPT?
O SCRIPT é um ensaio aleatorizado controlado suíço que estuda os efeitos da venda regulada de canábis em farmácias de Berna, Lucerna e Biel. Conduzido pelas universidades de Berna e Lucerna, acompanha 1.177 consumidores adultos e avalia o impacto na saúde, no mercado ilícito e nos padrões de consumo.
A venda de canábis em farmácias aumentou o consumo?
Não, segundo os dados intercalares. Na semana anterior à avaliação dos seis meses, 75% do grupo com acesso às farmácias tinha fumado canábis, contra 83% no grupo de controlo, que dependia apenas do mercado ilícito. O acesso legal também favoreceu vaporizadores e produtos orais, considerados potencialmente menos nocivos.
Porque é que a canábis do SCRIPT é mais cara do que a do mercado ilícito?
Os investigadores fixaram preços deliberadamente acima do mercado ilícito e aplicaram um imposto simulado de 3 a 4 francos suíços por grama. O objetivo é observar, em condições reais, como uma carga fiscal elevada influencia o consumo, a proteção dos jovens e a permanência dos consumidores no mercado ilegal.
Que riscos foram encontrados na canábis vendida ilegalmente?
Das 127 amostras ilícitas analisadas pela Universidade de Berna, nove continham canabinoides sintéticos, sobretudo em resina. A potência variava muito: houve resinas até 46% de THC e um e-liquid com 79%. Os consumidores quase nunca acertaram na potência estimada, com erros até 24 pontos percentuais.
Até quando vai decorrer o SCRIPT?
O ensaio começou as vendas em maio de 2024 e estava previsto para três anos. Em dezembro de 2025, o Serviço Federal de Saúde Pública suíço aprovou uma prorrogação de dois anos. As vendas em farmácia continuam até 31 de outubro de 2028 e o estudo termina oficialmente no final de 2029.
Os resultados do SCRIPT já são definitivos?
Não. São resultados intercalares, referentes aos primeiros seis meses, e ainda não passaram por revisão por pares. Os investigadores publicaram-nos antecipadamente por estarem a ser discutidos em plena preparação da lei federal suíça. Em temas como os eventos adversos graves, as amostras são ainda pequenas demais para conclusões firmes.
Que produtos preferiram os participantes nas farmácias?
Na flor, a variedade mais vendida foi a Blue Mint Cookies, com 18% de THC e 49,2 kg vendidos, seguida da Grapefruit Haze. Nos dispositivos, o e-joint descartável Honey Stick, a 19 francos suíços, vendeu 1.014 unidades. Os vaporizadores reutilizáveis mais caros venderam poucas dezenas de unidades.
Fontes
- Pilotversuche mit Cannabis, Bundesamt für Gesundheit (BAG / FOPH), 2025-12-01
- SCRIPT – Safer Cannabis: Research In Pharmacies randomised controlled Trial, resultados intercalares, Berner Institut für Hausarztmedizin (BIHAM), Universität Bern, 2026-09-07
- Evaluation des Konsumcannabisgesetzes (EKOCAN), Bundesministerium für Gesundheit, 2025-10-01
- Experiment gesloten coffeeshopketen, Rijksoverheid, 2026-01-01




